Na bíblia tem muitos livros,
Contando diversas histórias,
Trazendo mensagem pra os vivos,
Também guardando memórias,
O décimo oitavo é o de Jó,
A história de um bom varão,
Que antes de voltar ao pó,
Sofreu grande perseguição,
Eu vou detalhar a história,
De tudo o que aconteceu,
E assim deixar na memória,
A praga que ele sofreu,
Jó tinha enorme riqueza,
Vivia com muita abastança,
No sangue tinha a nobreza,
Do povo tinha a confiança,
Sua esposa era muito formosa,
Três filhas, de rara beleza,
A familia era muito famosa,
tinham parte na realeza,
Sete filhos de bom coração,
Viviam em grande harmonia,
Pois Jó ao fazer oração,
A Deus ele agradecia,
No seu gado tinha fartura,
sete mil eram de ovelhas,
quinhentas jumentas pura,
de boi quinhentas parelhas,
Camelos tinha três mil,
Muitos servos a seu dispor,
Isso me conta quem viu,
Tratava todos com amor,
era o mais rico do oriente,
muito respeito, lhe tinham,
de Deus era muito temente,
lhe procurar todos vinham,
Seus filhos banquetes davam,
Entre si com muita fartura,
E aos pais com isso alegravam,
Tratavam-se com ternura,
Jó era bem precavido,
Das coisas santas cuidava,
Por cada pecado cometido,
Aos filhos santificava,
Depois de toda a festança,
Com os filhos preocupado
Holocaustos oferecia,
Talvez por terem pecado,
De madrugada ele ia,
Sacrifícios a Deus ofertar,
Pelos seus filhos pedia,
A todos pra Deus perdoar,
Também a história nos conta,
No céu os anjos entravam,
E como o diabo apronta,
enquanto se apresentavam,
E Deus conhecendo a fundo,
Perguntou Satanás de onde vem?
Estava rodando pelo mundo!
Mas isso, o Senhor sabe bem!
Tens visto Jó o servo meu?
Igual a ele não tenho,
De ti ele não se valeu,
Por isso defendê-lo eu venho,
E aqui começa a peleja,
Do diabo contra o varão,
Instiga a Deus pra que veja,
O homem comer na sua mão,
Teu servo tem muita riqueza,
Tudo do bom Tu lhe deu,
Mas deixa ficar na pobreza,
vai cuspir no prato que comeu,
E Deus aceitou a peleja,
Por conhecer o coração,
Permito que nele tu veja,
Seus bens está em tua mão,
E assim partiu satanás,
Do céu pra casa de Jó,
Eu vou mostrar como faz,
E fez seus bens virar pó,
Foi no dia que aconteceu,
Festa na casa de um irmão,
Que grande mal sucedeu,
Acabando a animação,
Chegando um mensageiro,
Dizendo que os “Sabeus”,
Chegaram muito ligeiro,
E mataram os servos teus,
Levaram os bois que pastavam,
Levaram as jumentas também,
A todos eles cercavam,
Não escapou mais ninguém,
Só eu fugi da peleja,
E nada pude fazer,
Preciso que o Senhor veja,
E como vai proceder,
E antes de um terminar,
Já chegou outro correndo,
Dizendo vim te avisar,
O que está acontecendo,
Foi fogo de Deus que caiu,
Ovelhas e servos matando,
Não sei se mais alguém viu,
O que eu estou te contando,
Mais outro chegou ligeiro,
Dizendo valha-me Deus,
Mataram os servos primeiro,
Três bandos são de Caldeus,
Levaram também s camelos,
Enquanto eu corria pra cá,
Dai não pude mais vê-los,
Se foram pro lado de lá,
E ainda estando por perto,
Chega mais um nessa hora,
Dizendo que do deserto,
Um vento veio sem demora,
Estando os filhos comendo,
Todos unidos em amor,
A casa foi se rompendo,
E houve grande clamor,
Da casa nada sobrou,
dos filhos ninguém viveu,
só eu que a notícia dou,
foi eu quem sobreviveu,
Ouvindo todo a história,
Jó então levantou,
Rasgou seu manto de glória,
Sua cabeça raspou,
Lançando suas mãos na terra,
Prostrado a Deus adorou,
E não sabendo da guerra,
A sua alma chorou,
Nu neste mundo nasci,
E nu daqui vou morrer,
Se do Senhor recebi,
Ao Senhor vou devolver,
E como um santo agiu,
Nem mal palavra falou,
Em tudo que sucumbiu,
E em nada disso pecou,
Não satisfeito ficando,
Foi o diabo gemendo,
E quando se apresentado,
Foi logo a Deus maldizendo,
Pois Deus defendeu outra vez,
O seu Servo Jó lá na terra,
Dizendo eu vi o que tu fez,
Causando toda essa guerra,
Mas Ele é integro e justo,
Mantem-se fiel e sensato,
Suporta a todo custo,
Todo o teu desacato,
Pele por pele e terás,
Por Sua vida tão rara,
Toca-lhe nos ossos e verás,
Blasfemar na tua cara,
De novo Deus concedeu,
Autoridade ao diabo,
Do céu ele então desceu,
Mais liso do que quiabo,
Com Jó pelejou novamente,
Seu corpo de chagas encheu,
Úlceras com dor ele sente,
Do pé a cabeça cresceu,
Raspava com um caco as feridas,
No meio das cinzas sentado,
Fugiram as pessoas queridas,
Sozinho, mas conformado,
Até sua mulher lhe acorre,
Com uma palavra tão dura,
Renega ao teu Deus e morre,
Pra que essa fé tão pura?
Como uma doida tu falas,
Não sabe o que está dizendo,
Então porque não te calas,
Pois saiba que Deus está vendo,
Recebe tudo o que é bom,
E nem por isso agradece,
Receber o mal é um dom,
E Deus sabe o que acontece,
Em nada o servo pecou,
Foi fiel na sua palavra,
Nenhum mal sua boca falou,
E muitas vezes calava,
Dos três amigos restantes,
Elifaz, Bildade e Zofar,
Mesmo morando distantes,
Vieram a Jó consolar,
Nem conheceram o amigo,
Pela aparência que estava,
E combinaram consigo,
Quão grande dor suportava,
Mas assentaram no pó,
Ao lado do seu amigo,
E demonstraram ter dó
Dizendo estamos contigo,
Sete dias e sete noites,
Calados sem nada dizer,
Tão grande era sua dor,
Não tinham o que fazer,
Então resolveu falar Jó,
E seu dia amaldiçoar,
Que este dia seja um só,
Pra dele Deus não lembrar,
Que seja de trevas e morte,
Que a luz não lhe resplandeça,
Que Deus não lhe dê boa sorte,
Que a escuridão lhe abasteça,
Porque não me fechou o conceber;
nem dos meus olhos o que mirar.
Por que não morri eu desde o nascer?
E em saindo do ventre, pude expirar?
Ali os presos, juntos repousam,
e não ouvem a voz do exator.
Ali está o pequeno e os que ousam,
e o servo sem seu senhor.
Porque aquilo que temia,
Logo me sobreveio;
e do que Eu mais fugia,
virou meu receio,
Então Elifaz respondeu,
Se falarmos te enfadamos,
E foi o que aconteceu,
Por isso então nos calamos,
Tu a outros ensinavas,
Aos fracos fortalecia,
Em Tuas palavras firmavas,
Ao que antes padecia,
Mas agora que é contigo,
Te enfadas facilmente,
Não te achas mais abrigo,
E te torna inconsequente,
Então Elifaz respondeu,
E se intentarmos falar-te,
Prá dar-te um conselho meu,
Te poderá enfadar-te?
Mas quem poderia conter,
Se as palavras de ti já vem?
E os ensinos que podes dizer,
Aos fracos fortalecido tens,
As tuas palavras firmaram,
os que tropeçavam e caiam,
desfalecentes por ti levantaram,
mais fortalecidos saíram.
Mas agora, que se trata de ti,
te enfadas; e te perturbas,
Já não tens mais temor em si,
Não deixe que o mal a ti subas,
Em Deus põe a tua confiança,
Caminhas com integridade,
Tua inocência é aliança,
Em ti não se vê a maldade,
Sabendo que Deus é justiça,
Lembrai-vos dos inocentes,
E sendo isto uma premissa,
Daqueles que estão contentes,
Um justo já pereceu?
Ou destruiu-se o sincero?
Foi Deus quem o protegeu,
Estar perto dele eu quero,
Segundo o que eu tenho visto,
os que lavram a iniquidade,
semeiam o mal, e é por isto,
que segam a falsidade,
Com o hálito de Deus perecem;
e tem com um sopro a sua ira,
Ao rugido do leão entorpecem,
Esperando que os dentes lhes fira,
Sendo velho os leões perecem,
Porque já não tem mais presas;
da leoa seus filhos dispersem.
Lhes falta o alimento na mesa,
Uma coisa me veio em segredo;
Em sussurro me veio ao ouvido,
se hoje não tenho mais medo,
de Deus eu tenho aprendido,
Então ao ouvir amigos,
Jó se queixando a Deus,
E Deus falava consigo,
Eu guio os caminhos teus.
Tenho ouvido de tudo,
Dos consoladores molestos,
Porventura, também não me iludo,
Os termos já me são funestos.
Ou que é que te instiga,
Pra me responderes assim?
Se desta forma me intrigas,
Tua alma em lugar de mim.
Falar-te-ia Eu de montão,
E menearei com a cabeça;
palavras com precisão,
que aos lábios se compadeça.
Se essa dor não me cessa;
se me calar, me alivia?
minha força já não tem pressa,
fizeste o que tu queria.
Estou tão magro e fraco,
Todos veem a minha magreza,
Convivo só como um caco,
Já não se vê minha beleza.
Os homens falam de mim,
Me esbofeteiam com gosto,
se ajuntam pra ver o meu fim,
mas entre Deus estou posto.
Em paz eu vivi um tempo,
porém ele me quebrantou;
pegou-me já sem alento,
quase me despedaçou.
Cosi em minha pele o cilício,
e revolvi o meu orgulho no pó.
Meu rosto viveu um solstício,
No peito carrego o nó.
Minhas pálpebras já veem a morte,
Sem pelejar com as mãos,
Deus vai mudar minha sorte,
Purificar-me na minha oração.
Ó terra, meu sangue não veja,
nem se oculte o meu clamor!
E tua testemunha eu seja,
advogai-me em favor.
Os meus amigos me zombam,
Minhas lágrimas já se desfazem,
Pois quando os mais fortes tombam,
Suas dores não me satisfazem.
E Jó assim procedeu,
Falando de tudo um pouco,
Das coisas que recebeu,
Mas não agiu como louco.
Falou do mal recebido,
Agradeceu pelo bem,
Se tudo Deus tem permitido,
Com a boca só disse amém.
E mesmo sendo acusado,
Por Elifaz seu amigo,
Não se sentia culpado,
Deus tem estado consigo.
Pediu uma audiência com Deus,
Talvez pra se retratar,
Falar dos problemas seus,
Resposta Dele escutar.
E nessa audiência falou,
Porque o ímpio prospera?
E ele que nunca pecou,
Recebe o mal que não espera?
Bildade no assunto entrou,
E a Jó se fez perguntar,
Qual homem a Deus questionou,
Sem dele se aproximar.
A Deus Jó engrandeceu,
Reconheceu seu poder,
E o homem que o recebeu,
De Deus sua graça vai ter.
Mas fala também do perverso,
Da sorte que eles terão,
Buscando viver ao inverso,
Daquilo que Deus deu na mão.
Da terra o homem requer,
Riquezas e muito poder,
Mas isso terá quem souber,
Em Deus confiança manter.
Sabedoria e juízo,
Só Deus pode lhe dar,
Coração puro e bom siso,
De Deus ele pode esperar.
Lembrou-se Jó da riqueza,
Que um dia já possuíra,
E mesmo com grande destreza,
Isso a Deus arguira.
Mas hoje está quebrantado,
De chagas está sofrendo,
Padece tão grande enfado,
Mal sorte está lhe cabendo.
E mesmo passando tão mal,
Mantém sua integridade,
Não tendo Deus por igual,
Não se apegou a maldade.
Eliú achou que era errado,
Falar com tal presunção,
Acusou Jó de pecado,
Por isso, sua situação.
Chegou a enfurecer-se,
Por Jó não se admitir,
De sem pecado manter-se,
Mesmo estando a falir.
A Jó ele repreendeu,
Não aceitou tal resposta,
Pecado Jó cometeu,
E disso ele não gosta,
A Deus Eliú justifica,
Pedindo que Jó assuma,
Não pode uma pessoa tão rica,
Virar no monturo uma ruma.
Que Deus não ouve os aflitos,
Porque ele está no pecado,
Que vive com seus conflitos,
Não mudará seu estado.
Mas ainda tem esperança,
De Deus a misericórdia,
E mesmo sem confiança,
Não entrará em discórdia.
Que Deus so quer ver o bem,
Do homem que está na terra,
Que mesmo olhando do além,
Não vê o quanto ele erra.
Eliú faz exaltação,
A majestade de Deus,
O homem em sua condição,
Não vê os pecados seus.
Então Jó abriu seus ouvidos,
Para ouvir o altíssimo,
Por seus conselhos contidos,
Fez-se um momento riquíssimo.
Cingindo os lombos ouviu,
O poderoso falar,
E seus ouvidos abriu,
Para poder escutar.
O Senhor assim convenceu,
Dá ignorância de Jó,
No vento lhe apareceu,
Num redemoinho de pó.
Quem é este a escurecer,
dos olhos os meus intentos,
se deixa desvanecer,
viver sem conhecimentos?
Cingi, os lombos agora,
pois hei de te perguntar,
Onde estavas tu na hora,
De os fundamentos lançar.
Achas então que entendes?
Quem pôs na terra medidas,
Será que ouvindo aprendes?
por ti não são conhecidas.
Quem lhe estendeu o cordel?
suas bases onde é que estão,
quem lhe pintou com pincel,
ou quem poliu com suas mãos.
Da alva as estrelas viram,
juntas, alegre cantavam,
no firmamento se uniram,
doces canções entoavam.
Eram de Deus os seus filhos,
Quando nas portas do mar,
Lhe colocou os aguilhos,
E fez o mar ali parar.
Pus nuvens por vestidura,
na escuridão lhe pus fraldas?
Ferrolhos e armadura,
E nos cometas pus caldas.
até aqui tu virás,
e não irás adiante,
tua onda aqui quebrarás?
Não ficarás tão distante.
A terra tem sua largura!
Mas tu não sabes qual é,
E se no mar tem fundura,
Não podes medir com o pé.
E da luz, onde é a morada?
Que às trevas dela se afasta,
e das veredas a pegada,
onde o caminhar lhe basta.
Quem abriu regos para o aguaceiro,
ou pros relâmpagos e trovões;
faz a chuva cair primeiro,
sopra os ventos e furacões.
e no ermo, em que não há gente;
na terra deserta e assolada,
quem vive lá é quem sente,
aprende a viver sem nada.
Acaso, a chuva tem pai?
quem gera as gotas do orvalho?
E o gelo quando do céu cai?
Criando na relva o assoalho.
Quem dá ao corvo o alimento?
e aos pintainhos que gritam?
e andam vagueando, ao relento?
Aos ares do céu se limitam.
Se Jó não vai responder,
Não tendo esse conhecimento,
Pra Deus então entender,
Precisa de discernimento.
Então, respondeu Jó ao Senhor:
Bem sei que tudo tu podes,
Se não tiver teu penhor,
Não há ninguém que te acodes.
Quem é que o conselho encobre?
falei do que eu não entendia,
longe de ti eu sou pobre,
Castigo é o que merecia.
Escuta-me, pois, falarei;
e tudo tu me ensinarás.
Por isso eu te perguntarei,
De pronto eu vou te escutar,
No pó e na cinza eu estou,
Tu estás no teu santo monte,
Minha busca sem ti fracassou,
Sem tí já secou minha fonte.
Mudou o Senhor a sua sorte,
quando este orou por amigos,
Livrou a sua alma da morte,
E restaurou seus abrigos.
De tudo o que Jó perdeu,
O Senhor havia lembrado,
Em dobro Deus lhe devolveu,
Foi Jó então restaurado.
Jó recebeu dos irmãos,
Visitação de alegrias,
Trouxeram todos em mãos,
Seu ouro e pratarias.
Banquetes com muita fartura,
Dinheiro e anéis de ouro.
Vestidos, sandália e brochura,
E até tapetes de couro.
Abençoou o Senhor assim,
o último estado de Jó,
mudando então o seu fim,
tirando do peito este nó.
De ovelhas catorze mil,
seis mil foram de camelos,
ficou impressionado quem viu,
e Jó não fez nem apelos.
de bois, também foram mil juntas,
e mil jumentas também.
Ninguém lhe fez mais perguntas,
Da sorte que lhe sobrevém.
De filhos teve uma dezena,
Sete homens e três mulheres,
Sentados formavam a cena,
Comendo com lindos talheres.
Chamou a primeira Jemima,
E Quezia veio a seguir,
A todas em igual o pai mima,
Do acordar ao dormir.
Quéren-Hapuque chegou,
Pra completar as donzelas,
Na terra ninguém mais achou,
Outras mulheres tão belas.
Cento e quarenta são os anos;
Depois do que aconteceu,
Vivendo sem desenganos,
A Vida que Deus lhe deu.
Jó viu seus filhos e netos,
até à quarta geração.
Criou a todos sem vetos,
Com Deus no seu coração.
E com fartura de vida,
Partindo Jó bem feliz,
Encerrou aqui sua lida,
Pois foi assim que Deus quis.