David Rocha
Nada será impossível ao nosso amor, Enquanto deixar-me contigo e enquanto comigo for.
Textos

Minha vida tem histórias... Devaneios.

Penso muito sobre a vida,

Em tudo que aqui se faz,

No dia a dia e na lida,

Nas dores que a vida traz

Penso nos anos vividos,

Nos que ainda faltam viver,

Nos que não sei se vou ter,

E até nos já esquecidos.

 

No 65 eu nascendo,

09 de maio foi o dia,

No mundo aparecendo,

eu trouxe muita alegria,

Dona Alice era a parteira,

Na casa da minha vó,

Minha mãe sofrendo que só,

Sentada numa cadeira.

 

Mandaram na cama deitar,

Trazendo água e toalha,

Massagem pra relaxar,

Pra ver se o sangue não coalha,

Faz força e respira fundo,

Faz força mais uma vez,

Com a força que ela fez,

David chegou nesse mundo.

 

Dos cinco filhos que tinha,

Todos nascidos em casa,

Pela mão da parteira vinha,

Nenhum foi pra cova rasa,

O sexto filho sou eu,

Mas antes as gêmeas nasceram,

Walda e Waldeth cresceram,

Do jeito que Deus prometeu.

 

O Ulisses foi o primeiro,

O Wilter veio a seguir,

A Wedna veio em terceiro,

Eita mulher pra parir,

Meu pai sossego não tinha,

Minha mãe que aguentava,

E todo ano aguardava,

por mais um filho que vinha.

 

Waldith eu chamava de “MÔ”,

Veio depois que eu nasci,

Era branquinha na cor,

Gostando dela eu cresci,

Aliás de todos gostando,

Só vai entender quem conhece,

Tem coisa que a gente não esquece,

crescer sorrindo e chorando.

 

O Wilson já veio recente,

Com a gente já na cidade,

Mas já nasceu diferente,

Foi numa maternidade,

A década era 60

No ano 69,

Mais um rebento se move,

E a família só aumenta.

 

no Mês de Julho nasceu,

em 21 foi o dia,

já no Zé Walter cresceu,

pra nos trazer alegria,

não foi nenhum desengano,

partiu e ganhou o mundo,

tem conhecimento profundo,

ele é cosmopolitano.

 

A Nisa veio pra fechar,

Waldisia é o nome primeiro,

E se alguém aqui for falar,

por ela ser derradeiro,

já tem menino sobrando,

meu pai trabalhou dobrado,

tem que ralar um bocado,

pra ir seus filhos criando.

 

Mas vamos voltar pra conversa,

Ainda tem muito mais,

Não tem história inversa,

No que eu já contei pra traz,

Voltando no tempo um pouco,

Lembrando lá do meu berço,

Ainda falei nem um terço,

Mas já tô ficando é louco.

 

Me lembro de quando criança,

alguns flashes na memória,

minhas irmãs tinham trança,

vou te contar minha história,

de Itapipoca eu me lembro,

comprar leite numa fazenda,

minha mãe deu uma reprimenda,

foi em agosto ou setembro.

 

não sigam o rio no trilho,

ninguém lhe obedeceu,

o farol do trem deu o brilho,

na curva apareceu,

em alta velocidade,

e eu já no pontilhão,

meu irmão soltou minha mão,

eu com 3 anos de idade.

 

pula na água eu ouvia,

os gritos do meu irmão,

mas minha perna tremia,

não tinha mais reação,

mas um anjo me acudia,

Eu acho que eu que pulei,

ou acho que escorreguei,

sei que na água eu caia.

 

saímos da água eu em pranto,

e sem parar de chorar,

cascudo tu vai levar tanto,

se agora tu não se calar,

meus irmãos me ameaçaram,

até com bombons fui comprado,

pra chegar em casa calado.

e eles nada falaram.

 

até aí tudo bem,

ainda tinha bombom,

não disse nada a ninguém,

eu tava era achando bom,

mas quando o doce acabou,

eu no berreiro me achei,

do caso então eu falei,

e todo mundo apanhou.

 

outro episódio marcante,

foi o caso da lambretinha,

foi um pouco mais intrigante,

porque no meio treta tinha,

quando a vassoura quebrou,

a lambreta por cima passando,

o Wilter ia pilotando,

foi o que mais apanhou.

 

eu tinha o choro bem raso,

quando o caso era peia,

eu tinha quebrado o vaso,

e vi que a coisa era feia,

pior, não tinha perdão,

lá em casa era tão rigoroso,

não precisava ser perigoso,

pra apanhar de cinturão.

 

pro Paracuru nós mudamos,

fomos morar na avenida,

mas nós não estranhamos,

foi quase a mesma vida,

Paracuru dos antigos,

lá pelos anos sessenta,

nenhum perigo enfrenta,

quem tinha muitos amigos.

 

cabo Adalberto era a lei,

que se achava no lugar,

eu me sentia um rei,

sem ter medo de brigar,

me confiava na farda,

e no poder que ele tinha,

dizia toda tardinha,

mãe, lá vem o meu guarda.

 

tenho lembranças do mar,

do curral de pegar peixe,

bem cedo eu ia buscar,

trazia tudo num feixe,

lagosta grande e cangulo,

presente de pescador,

pra ele não tinha valor,

mas se ele não der eu não bulo.

 

No terreno da minha casa,

num grande espaço que tinha,

Meu pai as vezes arrendava,

Pra um grande circo que vinha,

E eu toda noite escutava,

O som que vinha de lá,

Numa radiadora a tocar,

Roberto Carlos cantava.

 

me lembro também do palhaço,

porque eu morria de medo,

fazia um estardalhaço,

dizia cortar o meu dedo,

um dia ele me assustou,

com a perna de pau ele vinha,

com medo eu dei uma tainha,

o safado caiu e se lascou.

 

Corri pra dentro chorando,

lá fora tava o destroço

o palhaço ta se acabando,

alguém gritou no alvoroço,

depressa correu muita gente,

atrás do sofá me escondi,

de medo eu quase morri,

porque a situação ficou quente.

 

Só fiz pra me defender,

Não tive aquela intenção,

Eu derrubei sem querer,

Criei uma situação,

O palhaço quebrando o braço,

com a cara toda arranhada,

minha mãe me deu uma lapada,

mas ele ficou só o bagaço.

 

Ele aprendeu a lição,

Não quis mais me assustar,

Passou por grande aflição,

Parado ele vai ficar,

Até o circo ir embora,

Em casa eu vou ficar preso,

Mas fico com o olho aceso,

Sair, eu não vejo a hora.

 

Depois que o circo sumiu,

Outro alvoroço ocorreu,

pois uma garota fugiu,

Disseram que alguém morreu,

Foi com o apresentador,

O safado passou-lhe um queixo,

Só não esperava o desfecho,

O pai era um matador.

 

Botou a polícia atras,

Pegou o cabra nas golas,

Pra ele não enganar mais,

quase cortou-lhe as bolas,

Deixou sentado num banco,

Não pode se levantar,

Talvez não vá mais andar,

O safado agora é manco.

 

Me lembro também da tragédia,

Do pescador que morreu,

Mas isso virou comédia,

Da forma que aconteceu,

levou uma cabrita amarrada,

no bote pro meio do mar,

com ela quis namorar,

levou uma baita chifrada.

 

O chifre acertou o tarado,

No meio das pernas entrou,

No mar ele foi empurrado,

gemendo ele se afogou,

Foi encontrado boiando,

Perto da sua jangada,

Com a cabrita amarrada,

A pobre estava berrando.

 

Não foi difícil entender,

Com base no acontecido,

Deu já pra compreender,

Porque ele tinha morrido,

Tentou estuprar o animal,

E ela se defendendo,

Foi logo o chifre metendo,

Rasgou-lhe o orifício anal.

 

De outro caso eu lembro,

Que a Waldith chorou,

Acho que foi em setembro

Que a caçamba atropelou,

A “Bá”, que cuidava dela,

Eu sei que ela não morreu,

Pelo tempo que adoeceu,

Ficou com a mão na vela.

 

Lembrei duma vizinha nossa,

Que tinha um buraco no muro,

Pra não cair numa fossa,

A gente fez outro furo,

A gente ia e voltava,

Pelo buraco passando,

Mesmo com a mãe falando,

A gente não se importava.

 

A Alba era a babinha,

Os íntimos assim a chamavam,

ela era muito calminha,

só quando não enfezavam,

fazia o diabo encarar,

se de “brabinha” chamasse,

porque se ela te pegasse,

tu ia ter que orar.

 

A Sizernanda e a Sizete,

Da Babinha eram as filhas,

A gente era pivete,

Na briga botava as pilhas,

Mas nada de confusão,

A gente até que gostava,

Depois que se perdoava,

Se amava como irmão.

 

O Beto era mais briguento,

Me defendia na rua,

Como ele era marrento,

Mandava eu sentar a pua,

A meninada tinha medo,

Mas eu tinha que ser esperto,

Porque sem o beto por perto,

Corria pra casa era cedo.

 

A martinha já veio depois,

Tem falha na dicção,

Não fala mas ouve por dois,

E ninguém sabe a razão,

Mas é um amor de pessoa,

Quando não está enfezada,

Se ela já não diz nada,

Na gargalhada ressoa.

 

O Paracuru era bom,

E tudo tinha hora certa,

Não tinha barulho de som,

Dormia de porta aberta,

A gente andava sem medo,

A gente ia e vinha,

Até dormir na vizinha,

Pois todos dormiam cedo.

 

Preocupação ninguém dava,

Pois todos se conheciam,

Se noutra casa estava,

Por certo amanheciam,

A mãe tranquila dormia,

Pois quando o filho aqui some,

Na hora que dava fome,

Pra casa logo corria.

 

A desgraceira se deu,

Quem viveu lá tambem viu,

O petróleo apareceu,

E o sossego sumiu,

E foi da noite pro dia,

Veio muita gente estranha,

A ambição foi tamanha,

Que o povo se iludia.

 

O nativo perdeu sua terra,

Iludido com a novidade,

Os amigos vivem em guerra,

Pensando na nova cidade,

Tudo está tão diferente,

O mar já ganhou outro canto,

O petróleo agora é seu manto,

O que vai ser dessa gente.

 

Ninguém se apercebeu,

Com essa história do Novo,

A paz daqui pereceu,

Pela ganancia do povo,

Nada será como antes,

O mar já não tem jangada,

O povo não tem mais nada,

Era o “Castelo de Abrantes”.

 

Meu pai comprou uma casa,

E diz que é uma beleza,

Em março daqui a gente vaza,

Vamos morar em Fortaleza,

O ano era 70,

Em cima de um caminhão,

Rasguei o meu coração,

Do jeito que ninguém aguenta.

 

E lá a gente chegando,

Ninguém queria ficar,

Eu fui logo perguntando,

Onde a gente vai morar,

Minha mãe não tinha escolha,

A casa era baixa e quente,

Calor aqui a gente sente,

O vento não mexe uma folha.

 

Meu pai tentou acalmar,

Do caminhão foi descendo,

Mandou as coisas tirar,

E a raiva ia crescendo,

Depois do caminhão partir,

A gente na casa nova,

Eu disse isso é uma cova,

O povo começou a rir.

 

Zé Walter era um bairro novo,

Estava em construção,

A casa era um ovo,

Mas tem terreno e oitão,

Meu pai estava animado,

Depois a gente aumenta,

A frente a gente acimenta,

Vamos trocar o telhado.

 

Anoiteceu no escuro,

A água logo acabou,

A casa já tinha muro,

Ninguém se aproximou,

Não tem comercio por perto,

Não tem nem um carro na rua,

Somente o brilho da lua,

Dormir com fome estou certo.

 

A mãe acendeu uma vela,

Enquanto a gente arrumava,

Lugar pra botar as redes,

E nem lençol se achava,

No meio daquela cena,

Me foi batendo o cansaço,

E com calor e mormaço,

A mãe até teve pena.

 

William vamos cuidar,

Disse a minha mãe pro meu pai,

Tereza eu vou descansar,

Senão o meu corpo cai,

Faz um café com bolacha,

Pra esses meninos dormir,

Amanhã quando sol sair,

As coisas a gente acha.

 

E assim aconteceu,

Depois do café com bolacha,

Todo mundo adormeceu,

E foi reduzindo a marcha,

A mãe na cama com o pai,

O Wilson pertinho do seio,

O Wilter e a Mô lá no meio,

O David da rede não cai.

 

As gêmeas estiradas no chão,

Pertinho aqui da passagem,

Estão sobre o mesmo colchão,

Com medo de uma visagem,

A mãe gritou vão dormir,

Se não quiser apanhar,

Ninguém quis acreditar,

Deixa a visagem sair.

 

E depois quando o sol saiu,

Naquela casinha nova,

Assim que a porta se abriu,

No quintal tinha uma cova,

Mas não precisa de espanto,

O pai que mandou cavar,

Disse ali vou botar,

Um cajueiro no canto.

 

E tome a casa arrumar,

Traz as coisas desse lado,

Faz logo sem reclamar,

Te mexe e fica calado,

o café eu já estou fazendo,

traz esse filtro pra cá,

o pão eu vou esquentar,

dá pra vocês ir comendo.

 

O dia foi longo e puxado,

Quase não chega ao fim,

Um nome ao lugar foi dado,

Se chamava Mondubim,

uma árvore tem esse nome,

Ninguém está percebendo,

Já está é anoitecendo,

Foi mais um dia de fome.

 

Sem vizinhança por perto,

Vi um pedreiro passar,

Me diga logo por certo,

Onde água vou encontrar,

De noite falta energia,

De dia água não tem,

Me diga uma coisa que vem,

Pra nos trazer alegria.

 

O cara ali riu de mim,

Dizendo não tenha mágoa,

Na rua aqui, lá no fim,

Vão construir caixa d’água,

Se a energia enfraquece,

Não é um problema nosso,

Mas lhe dizer isso eu posso,

É duma tal de Coelce.

 

“Mondubim cidade que seduz,

De dia falta água e de noite falta luz,

Na casa que não tem corno é milagre de Jesus.”

O cara me fez essa prosa,

Eu ri que quase mijei,

Caindo no chão chorei,

Mas recebi uma rosa.

 

Parti no rumo da frente,

Andando como um lesado,

Já quase como um descrente,

Mas eu já tava enfezado,

não tendo ninguém por perto,

morando naquela rua,

não sei se a culpa é sua,

mas não é minha estou certo.

 

Aqui vai ser outro prédio,

Talvez um grupo escolar,

Já vai diminuir o seu tédio,

Pois vai poder estudar,

Quem me falou tem a voz,

Tem nome de uma cantora,

Ou talvez uma escritora,

É grupo Raquel de Queiroz.

 

E ele falou sem engano,

Quem Disse foi o Vigário,

Do 1º ao 5º ano,

Vai ser a Série primário.

foi ali que eu entendi,

com 7 anos cheguei,

a estudar comecei,

e tudo eu aprendi.

 

Zenaide era a diretora,

Tia Julia era merendeira,

Tia Wanda era professora,

Cada aluno tinha carteira,

Mas eu era já escolado,

Aprendi em casa o dever,

A mãe me ensinou a ler,

As letras tendo cortado.

 

Minha tabuada foi gloria,

A Estela era quem ensinava,

E tinha uma palmatória,

pra cada vez eu que errava,

Tinha umas tal sabatinas,

Um tal ditado também,

Fazer oração com amém,

Saber respeitar as meninas.

 

Do lado era Dona Auristela,

Seu Martins e a Socorrinha,

Socorro, Ana e Estela,

Me ensinar ela vinha,

Osvaldo, Neto e Osvaldinho,

Do sertão eles vieram,

E para o Zé Walter trouxeram,

Do amor, um bocadinho.

 

Dona Bení era ao lado,

Tinha o Fernando e o Augusto,

E tem um bar que é falado,

O Paçoca arca com o custo,

O Sergio era sereno,

A Sandra era bonita,

Dentre os homens bendita,

E tinha outro pequeno.

 

Marcelino é o cachorrão,

Só chama quem o conhece,

Eu gosto como um irmão,

Minha amizade merece,

Veio na Sucam trabalhar,

Na UBV o encontrei,

O tempo que ali fiquei,

Nele eu vi me espelhar.

 

É muita gente na lista,

É vizinhança demais,

Não posso nem dá uma pista,

Dos que ficaram pra tras,

Se não lembrar vou perder

Muitos amigos que eu tive,

Não sei os que ainda vive,

Nem sei se vou poder ver.

 

A vida seguia serena,

A gente se acostumando,

Tinha dia que até dava pena,

O morador reclamando,

Da água faltando de dia,

De noite faltando a luz,

Mas tinha uma outra cruz,

Que muita gente ali via.

 

Os trabalhadores sofriam,

Com o transporte pra rua,

Pois de manhã eles iam,

Voltavam só com a lua,

Martins era o Motorista,

Do ônibus pra Fortaleza,

Pra dirigir com destreza,

Tinha que ser muito artista.

 

Branco azul e vermelho,

O Ônibus tinha essa cor,

Mais parecia um espelho,

Paixão do time com amor,

Quatro viagens fazia,

Todas num certo horário,

Somente quem era otário,

Que o seu ônibus perdia.

 

A vista do que era antes,

Zé Walter é uma grande cidade,

Não é mais Castelo de Abrantes,

Tem mais de cinquenta de idade,

Tudo está tão diferente,

Mesmo de dia sendo um forno,

Ainda tem a fama de corno,

Pra assustar muita gente.

 

Penso quando era criança,

Com fantasias e medos,

Eu tinha tanta esperança.

Que hoje são só segredos,

Penso quando comecei,

Aos nove anos de idade,

Morando lá na cidade,

No comércio trabalhei.

 

Era uma grande boutique,

O chão eu varria e Limpava,

Pra parecer muito chique.

A vitrine eu também arrumava,

Laíde era minha patroa,

Com Alcides três filhos têm,

No bairro viviam bem,

Levavam uma vida boa.

 

Me chamavam de irmãozinho,

Pelo fato de eu ser crente,

Mesmo sendo um cristãozinho,

Eu já era bem pra frente,

Bem vestido e elegante,

Só andava perfumado,

E quando eu tava arrumado,

Mais parecia um gigante.

 

A Ivone de nega eu chamava,

Seu pai e sua mãe também,

Eu sei que ela muito gostava,

Da forma de lhe querer bem,

Lardé, já era casada,

Era o Cleodon seu marido,

Por ela era muito querido,

Por ele ela era amada.

 

O Rubens era o filho rapaz,

Parecia galã de cinema,

Namorava com a Lurdinha,

Não tinha nenhum problema,

Não sei onde trabalhava,

Em casa eu pouco o via,

Não sei pra onde ele ia,

Só sei que não estudava.

 

Dona Laíde era obesa,

Por isso eu a ajudava,

Mas quando sentava na mesa,

Fartura ali me sobrava,

Comia minha refeição,

Mas tinha que ser direito,

Eu tinha que ser perfeito,

Comer com educação.

 

O quintal era bem espaçoso,

Tinha uma cadela, a Safira,

Eu tinha que ser cuidadoso,

Pois estava na sua mira,

Mas com o tempo passando,

Aprendi a lidar com ela,

E de tanto brincar com a bela,

Fui me acostumando.

 

Vizinho a boutique tinha,

A casa da dona Maria,

As vezes comprar ela vinha,

Levava o que queria,

O Marcos era seu filho,

Arleide e Aurilene também,

Na serra o Arnoldo mantém,

E todos tem o seu brilho.

 

Fazinha era mestra prendada,

Casada com o Luiz,

Francisco aqui tinha morada,

Do jeito que sempre quis,

Ludwig e Ludivila eu sei,

Da professora são cria,

Indo em visita os via,

Nos tempos que ali passei.

 

Do outro lado tem tema,

Uma família especial,

Filhos da Dona Iracema,

Mas que família legal,

Dinir do Denisio é irmão,

Vania e Valdísia também,

O Vagner eu sei que tem,

Lembro também do João.

 

Não dá pra encerrar essa cota,

Sem falar de tal pessoa,

Em frente morava o Frota,

Sua amizade era boa,

Vizinho ao seu Ediel,

Tinha também seu Dequinha,

Dono da bodeguinha,

Eu era cliente fiel.

 

Dequinha e dona Salete,

Pais do José e do João,

E tinha outro pivete,

Do nome eu me lembro não,

Tinha a Vânia e a Verônica,

É muita gente a lembrar,

A última que vou falar,

Acho que o nome é a Mônica.

 

Do Ediel que eu falei,

Que também tinha um comercio,

Deles me aproximei,

Morava em frente ao Valdécio

Com o Jeziel eu andava,

Um dos filhos que ele tinha,

Chegando a noite eu vinha,

E no comércio comprava,

 

Outro episódio marcante,

Na boutique eu trabalhando,

Tinha um menino implicante,

Com sua mãe me olhando,

Argemiro já tinha fama,

Filho de dona Alzira,

Eu tinha ele na mira,

De Xuxu ela lhe chama.

 

O tempo passou depressa,

Mas sei que não foi a toa,

Pois na boutique com pressa,

Aprendi muita coisa boa,

Se como mãe me tratava,

Eu sei que isto é um fato,

Não sendo seu filho nato,

De tudo enquanto me dava.

 

Ganhava dinheiro no mês,

Eu era só o ajudante,

Daí chegou minha vez,

E isso foi importante,

Mudamos pro Parque Araxá,

A boutique foi crescendo,

E eu fui aparecendo,

Com a família eu fui morar.

 

Mas como tudo que é bom,

Nem sempre bom permanece,

A coisa mudou de tom,

Dona Laíde adoece,

O médico chamou atenção,

Sua vida tem que mudar,

A senhora vai ter que cuidar,

Problema no coração.

 

Foi grande a comoção,

Toda a família sofreu,

Tomei minha decisão,

Quem vai embora sou eu,

Pra acompanhar sua saúde,

Minha irmã vai lhe ajudar,

Pois ela vai vir pra cá,

Vai fazer o que eu não pude.

 

Mulher com mulher dá certo,

Vai lhe ajudar com prazer,

E ela estando por perto,

Tudo ela pode fazer,

Não precisamos chorar,

Pois mesmo partindo agora,

Sei que esta é uma boa hora,

As coisas vão melhorar.

 

Na mala eu levei saudade,

A boutique deixei pra trás,

E agora com mais idade,

Com 16, sou rapaz,

Acostumado a ganhar,

Botei o pé na estrada,

E pra não ficar sem nada,

Trabalho fui barganhar.

 

Vender jornal tú irá,

me disse o meu irmão,

Tribuna do Ceará,

É o jornal do povão,

Acordando de madrugada,

Vendendo o jornal lá na rua,

uma parte é minha outra é tua,

com sol ou com chuvarada.

 

Vamos em frente eu topei,

só aguentei uma semana,

mas, juro que eu tentei,

é uma situação desumana,

de sono me consumindo,

não segurei meu intento,

caindo no desalento,

do jornal eu tô desistindo.

 

mas como eu tinha investido,

uma parte do meu dinheiro,

e pra não dá por perdido,

pensei então no banheiro

já sei o que vou fazer,

com uma freguesia aberta,

entrego na hora certa,

depois vou só receber.

 

de porta em porta indagava,

aos pais dos meus conhecidos,

em quem também confiava,

os meus jornais recebidos,

do meu irmão eu comprando,

pois ele trazia os jornais,

pagava um pouquinho a mais,

depois eu ia entregando.

 

enquanto estava parado,

aprendi a ganhar dinheiro,

por meu pai orientado,

virei foi relojoeiro,

nas horas vagas é sua arte,

eu aprendi sem demora,

vou ter cliente na hora,

do grupo vou fazer parte.

 

deu muito certo por hora,

foi muito bom eu diria,

convite chegou-me por fora,

trabalhar numa livraria,

na livraria Batista,

no centro de Fortaleza,

daí pra mim foi beleza,

já me sentia um artista.

 

enquanto isso eu faria,

do tempo tirava uma parte,

dedicado à relojoaria,

pois nisso eu via uma arte,

pra dedicar dias inteiros,

da livraria eu mudei,

quando um currículo eu botei,

na casa dos relojoeiros.

 

Cuidemos que o tempo passa,

Enquanto a coisa acontece,

Quem vive aqui te abraça,

E com carinho te aquece,

Pois quem no Zé Walter mora,

Afirma com bem segurança,

Homem, mulher e criança,

Que deste conjunto adora.

 

O primário eu terminei,

E eu estava muito contente,

O Raquel de Queiroz eu deixei,

Pra estudar no Polivalente,

No quinto ano eu cursando,

Já me sentia um doutor,

Na arte era professor,

Muito carão eu levando.

 

Do quinto ao oitavo ano,

O secundário era um tédio,

Hoje, se não me engano,

Se chama ensino médio,

Eu terminei com louvor,

Mas não queria partir,

Daquela turma sair,

Era uma turma de amor.

 

Amigos eu tinha um monte,

Mas aqui vou falar de um,

pois é melhor que eu não conte,

Pra não esquecer de nenhum,

Só sei que o Valmirzinho,

Todos chamavam “Jarrão”,

Pois ele era gordão,

Mas tinha enorme carinho.

 

Me defendia das brigas,

Quando chegava o recreio,

Se eu arranjava as intrigas,

Com ele não tinha receio,

Mas se pra aula faltava,

Pro recreio eu não saia,

Da tropa eu me escondia,

Pra casa eu me mandava.

 

Pela manhã eu estudava,

Na escola Polivalente,

Só a tarde eu trabalhava,

Estava muito contente,

Já me sentia um rapaz,

Mesmo com pouca idade,

Eu tinha maturidade,

Mostrava que era capaz.

 

Aos 12 anos de idade,

De Uma garota eu gostando

Era da mesma cidade,

E um bilhete enviando,

O qual ela devolvendo,

Com outro escrito do lado,

Não sinta-se magoado,

Traduza o que estou vendo.

 

Era garrancho demais,

Nem mesmo eu consegui ler,

Mas sei que você é capaz

E você vai aprender,

Fiquei sem jeito na hora,

Tentei esconder minha cara,

Mas ela é uma joia rara,

Venha pra cá sem demora.

 

Me deu um sermão carinhoso,

Me disse eu vou te ajudar,

Não quero você preguiçoso,

A gente vai namorar,

E vendo que eu já sofria,

Me convenceu a estudar,

Sua letra vai caprichar,

Treinando a caligrafia.

 

Se hoje eu escrevo direito,

Eu devo isso a “Corrinha”,

E sendo eu imperfeito,

Perdi o amor que me tinha,

Os anos já se passaram,

Só me restaram lembranças,

Eu não guardei esperanças,

Pois muitas águas rolaram.

 

Voltando ao tempo de escola,

No polivalente eu estava,

Depois da aula com a bola,

Lá na quadra eu jogava,

Briguei com um valentão,

No olho me deu um murro,

Parecia o coice de um burro,

Acabei com um grande manchão.

 

Tem coisas que aconteceram,

Na vida em paralelo,

Que nos enlaces teceram,

Outro momento tão belo,

Mas quis terminar esta parte,

Não misturando as cenas,

Apenas tornando amenas,

O meu viver foi uma arte.

 

Tem muitas outras histórias,

Que aqui não dá pra contar,

Mas tive muitas vitórias,

Essa não dá pra pular,

Quando a Assembleia deixei,

O Clovis era o pastor,

Do meu cabelo falou,

E eu nunca o desrespeitei.

 

De jovens tinha um congresso,

Em Paracuru, na igreja,

E nesse dia eu confesso,

Pelo que digo assim seja,

Ele ficou transtornado,

Me vendo já esperando,

E quase o ônibus chegando,

Deixou-me mais revoltado.

 

Se ele for eu não vou,

Não aceito esse tipo de crente,

É pra isso que cá estou,

Falei então bem contente,

Isso eu não posso aceitar,

Cabeludo dentro da igreja,

E ali começou a peleja,

Pra casa ele vai voltar.

 

Achei melhor desistir,

Daquela minha bobagem,

Antes do ônibus partir,

Peguei de volta a passagem,

pra minha casa voltei,

pra não ter mais discussão,

e acabar a confusão,

aquela data contei.

 

A Assembleia eu deixei,

A Waldith me acompanhou,

E lá no Sérgio encontrei,

Um grupo que me encantou,

Uma igreja bem diferente,

Com jovens e anciãos,

E todos são bons irmãos,

Continuei sendo crente.

 

O Sergio era meu vizinho,

A Izeuda é a sua mulher,

Sua casa era o meu ninho,

É meu amigo de fé,

Uma congregação que nasceu,

Como reunião de família,

Com pai, mãe, filho e filha,

E com quem se converteu.

 

A Poliana veio primeiro,

O Rômulo veio logo depois,

Adriano foi o terceiro,

Daniel foi quem mais se impôs,

A Priscila foi fim de rama,

Em uma família de crente,

E todo mundo é descente,

Por isso que a gente ama.

 

Seu Wilson era um bom pai,

De uma família bonita

Dona Deusa e seus filhos,

Gente que a igreja acredita,

Elder tocava violão,

Tinha o Marcilio e o Stenio,

Marcelo e Paulo Milênio,

São todos bons na canção.

 

Acho que tinha mais um,

Em Conceição do Araguaia,

Hoje, eu esquecer é comum,

Vez que a memória me traia,

Tarcisio, se não me engano,

O Marcos lembrei agora,

E do Boanerges na hora,

Pra completar este plano.

 

Era uma igreja pequena,

Numa garagem de casa,

Mas com uma gente serena,

Onde o espírito se abrasa,

Tinha oração e louvor,

E todo mundo se amava,

A gente ansioso esperava,

Sentir aquele calor.

 

Tinha um bocado de irmão,

Serafim era o pastor,

Era quem dava o sermão,

Quando tudo começou,

Tinha a Drusila também,

Com sua mãe e um irmão,

Os nomes Eu lembro não,

Mas deles eu lembro bem.

 

Tinha o irmão Edson também,

Ele vendia isopor,

Se eu não lembrar por favor,

Peço a ajuda de alguém.

Vinha da igreja central,

No bairro da piedade,

Atravessando a cidade,

Rua Ana Gonçalves e tal.

 

Tinha Vanilce e Vanira,

Vania e Vanimeire,

E se tem “V “ ta na mira,

Coisas de Paulo Freire,

Vania, Vanísia e Vanilson,

Sei que tem gente faltando,

Mas eu não estou lembrando,

Só sei que não é Vadilson.

 

Eu sei que algum nome esqueci,

Lembrei do Claudio e Salete,

E alguém que um dia eu ví,

A Jaqueline e a Ivonete,

Moravam todos pertinho,

E os que moravam distantes,

Nos cultos eram infantes,

Vinham com todo carinho.

 

José e Mariá é um casal,

Givago não era o “Doutor”,

Tinha uma irmã e afinal,

Lembranças que o tempo levou,

Tinha a família da Amada,

Gustavo, Eduardo e Soraia,

Os que na memória me caia,

Sua mãe era muito prendada.

 

Tinha o Luiz e a Chiquinha,

Irmã Dica e Zé de Pontes,

Os filhos que também vinha,

Todos beber nestas fontes,

Isaias e Berenice,

O Sergio e a Verinha

Washington e Socorrinha,

Completa tudo o que eu disse,

 

Sergilene e a irmã Sergiana,

Sua mãe e a Neidinha,

Tinha também a irmã Ana,

E a Mila que era vizinha,

A Neide irmã da Ana Rosa,

Mãe da Nanda e do Junho,

Que eu lhe pegava no punho,

Sempre que tinha uma prosa.

 

O Maúma e a Claudiana,

Silvana e Thaisa sua filha,

E se a mente não me engana,

É gente que muito brilha,

sendo uma família querida,

Carinho que a gente sente,

E todos tem sangue quente,

Me deram muita guarida.

 

O Neto e a Marlene chegaram,

Com a Kelly o Jorge e o Bruno,

Tambem na igreja ficaram,

Eles tinham um fiat UNO,

O Lucas era mais novo,

A Sâmya da Kelly é herança,

É da sua mãe esperança,

É pra sua vó um renovo.

 

A Deusa, então nem se fala,

É um amor de pessoa,

Se é pra falar não se cala,

Nisso, ela é muito boa,

O pai da Sãmia é Sydslei,

Filho do seu Alves, vizinho,

Que procurou seu caminho,

Pra onde foi eu não sei.

 

Depois que a igreja cresceu,

Na garagem não tava dando,

Tanta gente apareceu,

A igreja foi aumentando,

E antes do piso ceder,

Fomos pra outro lugar,

A igreja foi se mudar,

Pra esquina da “I” com a “D”.

 

Mudar de assunto agora,

Falar de coisas a parte,

Não sei se é boa hora,

Vou lhe falar da minha arte,

Uma adolescência puxada,

Pintava e bordava o sete,

Por isso ninguém se mete,

Parecia um cabo de enxada.

 

Com 15 anos eu tava,

No Zé Walter Eu era um rei,

Com som eu já trabalhava,

Junto com o Wanderley

Lá no centrinho da D,

Quinta e sexta tinha som,

No Grêmio sábado era bom,

Dava pra se manter.

 

É o meu primo e parceiro,

Em muitos outros projetos,

Ganhamos junto dinheiro,

Mas com seu pai tinha vetos,

O Isnard não gostava de mim,

Dizia ser má influência,

Mas não lhe quis mal querência,

Passou a me amar lá pro fim.

 

A gente tinha amizades,

Com toda galera pop,

Agradava todas idades,

A gente até dava ibope,

Com aparelhagem completa,

Fazia um som diferente,

Brilhava com aquela gente,

Ganhar dinheiro era a meta.

 

Mas na semana era o trampo,

Teófilo era o nosso patrão,

Foto e relógio era o campo,

Na galeria Brandão,

Clotran fazia uma linha,

A Maraponga também,

Na algazarra e no amém,

A gente ia e vinha.

 

Falando da escola outra vez,

Pois tudo é paralelo,

Já não tem mais ou talvez,

Achando que o mundo é belo,

Vivi uma vida agitada,

Trabalho, estudo e lazer,

E tudo o que dá prazer,

Só não curtia noitada.

 

Eu sei que tu não querias,

Sair do polivalente,

Mas no Otávio de Farias,

Tudo vai ser diferente,

Já vai pro segundo grau,

Está perto de terminar,

Minha mãe só pra me agradar,

Dizia meu filho é o tal.

 

O segundo grau terminando,

Um cursinho eu fui fazer,

Vou continuar estudando,

Pra alguém na vida eu ser,

No “Equipe” eu fui estudar,

Do trabalho ia cansado,

Mas Já estava animado,

Pra tentar o vestibular.

 

“Meu Patra” assim eu chamava,

O Bernardo que é o meu tio,

Pra estudar se esforçava,

Também era um desafio,

Ir trabalhar todo dia,

Ainda de ônibus andando,

Eu não estou reclamando,

O pão do diabo eu comia.

 

O vestibular eu tentei,

Pra letras e arquitetura,

De primeira eu não passei,

Mas fiquei na dependura,

Acreditei na muita insistência,

Nos classificados ficando,

A faculdade chamando,

Por causa duma desistência.

 

Em 83 foi o ano,

e maio já foi o Mês,

de relojoeiro no pano,

aproveitei minha vez,

nos testes que ali fizeram,

e sendo um dos primeiros,

na casa dos relojoeiros

Um bom emprego me deram.

 

La no Zé Walter encontrei,

Na rua quarenta e nove,

Por quem eu me apaixonei,

Garota que me comove,

Tinha a Fransquinha e o Feitosa,

Da Marcia eram parentes,

Eram pessoas decentes,

Ela era magra e charmosa.

 

De namoro foi só um ano,

Com o noivado quase dois,

E para o meu desengano,

Só era pra me casar depois,

Em 85 foi o ano,

Tu vai se olhar no espelho,

Minha mãe me deu um conselho,

Tu vai cometer um engano.

 

em 85, em outubro,

eu inventei de casar,

mas, se bem antes descubro,

tinha deixado passar,

minha mãe me disse cuidado,

casar não é brincadeira,

você vai fazer besteira,

devia ter escutado.

 

Em outubro ao invés de dezembro

Antecipei em dois meses,

Ouvindo minha mãe me lembro,

Me arrependi muitas vezes,

Nos casamos na regra da lei,

E no Zé Walter morando,

De ônibus ainda andando

Pro Maracanaú eu mudei.

 

no 85, em novembro,

meu pai chega às pressas e diz,

da SUCAM tu vai ser um membro,

sem nem perguntar se eu quiz,

serviço público é mais certo,

dá pra crescer e melhorar,

basta querer e trabalhar,

e eu vou também estar perto.

 

Passei o pé pela mão,

Em quatro anos casados,

Vi o inferno e o cão,

Estamos então separados,

Na frente eu te conto mais,

Mas um conselho te falo,

Não passe por este calo,

E obedeça a seus pais.

 

Aprendi muito mais cedo,

Botar a barba de molho,

Mas não vivi só de medo,

Melhor é abrir o olho,

Nesse sabugo tem milhos,

Nem tudo foi maldição,

E alegra o meu coração,

Ela me deu quatro filhos.

 

Mais na frente se vê,

A história de cada um,

Não tenho nada a esconder,

É uma história comum,

Tem sua subida e descida,

Tem sofrimento e dor,

Mas tambem tem amor,

E cicatriz merecida.

 

Dos filhos que ela me deu,

Três vivos ainda estão,

Apenas um se perdeu,

Deus é quem sabe a razão,

Me cobro dias e noites,

Pelo que fiz e o que não,

Sangrei o meu coração,

E recebi os açoites.

 

em 86, nasce um filho,

primeiro dia de dezembro,

veio Samuel cheio de brilho,

disso eu bem me lembro,

e antes de um ano inteiro,

ela falou, estou prenha,

que uma menina venha,

se for vai ser derradeiro.

 

Não foi assim planejado,

bem antes do casamento,

eu já havia falado,

qual seria o meu intento,

os cinco anos primeiros,

quero estudar pra valer,

e uma profissão eu vou ter,

Os filhos são derradeiros.

 

mulher não escuta a gente,

conselhos não quis ouvir,

por mais que gente tente,

ela só pensa em parir,

quer porque quer uma menina,

outro homem veio primeiro,

em dezesseis de janeiro,

ai começou minha sina.

 

David Abraão se chamava,

um louro bem diferente,

a Deus então eu clamava,

pra encerrar a semente,

começou então uma intriga,

que dividiu o casal,

e foi tão grande este mal,

que terminou tudo em briga.

 

Depois nasceu o Joel,

Abner é sobrenome,

Comigo engoliu o féu,

Só não lhe fiz passar fome,

A coisa foi apertando,

No meio da discussão,

Daí eu me vi sem chão,

Com a relação sufocando.

 

tudo mudou de repente,

o amor foi se apagando,

a mulher virou uma serpente,

vivia então me picando,

de acordo com a minha ciência,

tudo tem certo limite,

não quero que me imite,

Fiquei sem minha paciência.

 

não gosto de confusão,

principalmente comigo,

eu não levanto a mão,

já pra não ter inimigo,

eu gosto mesmo a da paz,

fevereiro do ano noventa,

já que o diabo me atenta,

vou embora e não volto atrás.

 

parti sem eira e nem beira,

foi antes da meia noite,

pra não fazer mais besteira,

e nem levar outro açoite,

na garganta eu tinha um nó,

no último ônibus parti,

nem mesmo meus filhos vi,

fui lá pra casa da vó.

 

passei a noite acordado,

pensando no que fazer,

já me sentia acabado,

voltar não me dá prazer,

pra frente é que a estrada anda,

vou enfrentar a questão,

pois nessa situação,

o coração é quem manda.

 

Quando a Rebeca nasceu,

Eu já havia partido,

Por tudo o que aconteceu,

De casa eu tinha saído,

Foi grande a sua peleja,

Nascer já bem longe do pai,

Crescer com esse trauma ela vai,

Espero que triste não seja.

 

O tempo foi me ensinando,

E com a distância eu sofri,

Aos poucos me levantando,

E mesmo na dor entendi,

Meu pecado me consome,

Mas Deus me deu nova luz,

E se hoje eu tenho uma cruz,

Não vou manchar o meu nome.

 

Me levantei do monturo,

Do pó eu me fiz banir,

A vida me deu osso duro,

Quando encontrei a Janir,

Sendo minha prima também,

Me ajudou com presteza,

Me deu a mão na tristeza,

Dizia me querer bem.

 

Passamos por muitas lutas,

Dificuldades aos montes,

De sol a sol nas labutas,

Só não moramos nas pontes,

minha sogra, Tambem é minha tia,

Moramos apertadinhos,

ficamos todos juntinhos,

Vendo se a vida valia.

 

Do Maracanaú então vimos,

No Antônio Bezerra morar,

Num apartamento caímos,

Passou a ser nosso lar,

Janir com dois filhos veio,

Depois ela engravidou,

o orçamento apertou,

daí o ruim ficou feio.

 

Marcinha é a maiorzinha,

O Marcio era bem menor,

Todos naquela casinha,

Não dava pra ser pior,

Passamos muito perrengue,

Dai veio mais uma filha,

E mesmo assim ela brilha,

Mais que a salsa e o merengue.

 

De Lídia foi batizada,

Da mãe o olhar ela herdou,

Também é uma filha amada,

Muito carinho ganhou,

Virou o xodó do momento,

A Joana cuidava dela,

Era uma menina tão bela,

A flor do apartamento.

 

Com sete filhos ficamos,

A vida então apertou,

O apartamento onde estamos,

A todos ele abrigou,

E Eu já não tinha transporte,

Na cólera todos sofreram,

Filhos de muitos morreram,

Mas Deus nos deu boa sorte.

 

O tempo foi muito cruel,

Janir já não aguentou,

Cuspiu em mim todo o fel,

Quando de mim separou,

Voltou para o Rio morar,

Levou os filhos com ela,

Diz que a cidade é mais bela,

Aqui não vou mais ficar.

 

No Rio alugamos casa,

Na praia de Sepetiba,

Cavei minha cova rasa,

Ficando pra baixo e pra riba,

Esperando uma transferência,

Pra no rio eu ir trabalhar,

Pensando em lá morar,

Perdi a minha consciência.

 

De volta a terrinha quente,

Pro Maracanaú eu voltei,

Mesmo com a Lídia ausente,

Foi que a Teresa encontrei,

Um filho pequeno ela tinha,

Já separada do Braz,

E sendo um bom rapaz,

Ver o Leandro ele vinha.

 

Com aquela separação,

Leandro sofreu com a ausência,

E tendo um bom coração,

Agimos com toda prudência,

Dona Maria é a avó,

E sendo mulher preparada,

Juntou toda a meninada,

E segurou aquele nó.

 

Era menino demais,

Tudo junto e misturado,

Não achei que fosse capaz,

Não me achava preparado,

Foi com coragem e fé

Que passamos por esta luta,

Todo dia na labuta,

Pra casa ficar em pé.

 

Tempos depois encontrei,

O Xuxu e sua gente,

Com a Teresa eu casei,

Ela era sua parente,

Recordando então o passado,

Falamos do acontecido,

Disse não ter merecido,

O cascudo que lhe foi dado.

 

É caminhoneiro que anda,

Pelo brasil a vagar,

De vez em quando ele manda,

Um alô pra recordar,

Grande abraço meu amigo,

Da minha infância faz parte,

Vivendo da sua arte,

Correndo muito perigo.

 

Com sete anos depois,

Sem forças pra continuar,

A Teresa se indispôs,

Foi o jeito me separar,

Com um português se casou,

Foi morar em Portugal,

De uma filha engravidou,

Liara hoje é a tal.

 

Mais uma vez eu errei,

Num reencontro fatal,

Com a Cleide eu me juntei,

Pra viver como um casal,

Cabeleireira cursada,

No Papicu trabalhou,

E o dinheiro que ganhou,

Juntou pra sua morada.

 

No Antônio Bezerra escolheu,

Comprar uma casa nova,

O resto empreendeu,

Colocando sua arte a prova,

“Pra ser bela” era o salão,

No bairro Monte Castelo,

E sendo um presente tão belo.

também disso ela abriu mão,

 

Arthur Bruno é o herdeiro,

Meu filho junto com ela,

E esse foi derradeiro,

Foi com ferrolho e tramela,

Depois da vasectomia,

Ninguém mais nasceu de mim,

Não sei se é bom ou ruim,

Mas era o que eu queria.

 

Três anos depois eu parti,

Morando numa vila ao lado,

Pois ao Arthur assisti,

Passar por um mau bocado,

Tinha febre emocional,

Logo que anoitecia,

Quando eu não aparecia,

Ele ficava mal.

 

Aos poucos foi acostumando,

Com carinho me visitava,

Na vila eu ia levando,

Daí ele já relaxava,

Hoje é um homenzarrão

E mais de vinte já fez,

Só vejo uma vez por mês,

E alegra o meu coração.

 

Foi nesta bendita vila,

Que meu coração renovei,

Já tinha saído da fila,

Quando a Maria encontrei,

Fugia que nem o diabo,

Da cruz correndo se esconde,

Não sei porque se esconde,

Desliza que nem quiabo.

 

A vila era boa morada,

A casa era aconchegante,

Portão fechando a entrada,

Barão era o comandante,

O número de casa era cinco

A maria era a primeira,

Eu tava na derradeira,

Todos cuidavam com afinco.

 

No meio a irmã da Maria,

Depois tinha a Lucia e o Neto,

E tudo o que eu gostaria,

Era poder ficar quieto,

Mas ao passar na janela,

Dizendo estou com sede,

Foi que eu joguei minha rede,

Esperando a reação dela.

 

Maria água me deu,

Depois uma sopa bem quente,

Meu coração lhe atendeu,

E até hoje ele sente,

Foi coisa do espírito santo,

O destino me deu um laço,

E agora não sei o que eu faço,

Já me cobri com seu manto.

 

Conversa vai e acende,

Uma nova chama de amor,

Não sei se você me entende,

Pois isso mexeu com a dor,

Coisa passada algum dia,

Da sua família falando,

O assunto foi complicando,

Já namorei com a sua tia.

 

Coincidência ou destino,

Em alguns anos passados,

Eu quase tirei um fino,

buscando nos meus guardados,

pois descobri que a Maria,

em São Paulo estava vivendo,

e o telefone atendendo,

na casa de sua tia.

 

Eu conversava com ela,

Sem saber de sua pessoa,

Mas era uma voz tão bela,

Pensava é uma moça boa,

Os anos foram passando,

A sua tia fui esquecendo,

E a vida foi promovendo,

Eu com a Maria encontrando.

 

Nem em mil anos se dá,

De numa história como essa,

O seu amor Deus mandar,

Mesmo sem que você peça,

Começa então esta fase,

Na vila ali do Barão,

Vivendo nesta emoção,

Eu com a Maria me case.

 

Mas antes do casamento,

Sofri um novo acidente,

Descuido por um momento,

Na moto fui displicente,

Morando só na casinha,

Comprei muletas pra andar,

Maria de mim veio cuidar,

Com isso a gente se aninha.

 

Meu filho é o Arthur,

Ainda é uma criança,

E se tú quer eu pra tú,

Não tire minha esperança,

Ela o abraçou como filho,

Ele aceitou com carinho,

E já faz parte do ninho,

Com seu amor e seu brilho.

 

Cuidava com todo amor,

Com leite na mamadeira,

E seja pra onde for,

Não era de brincadeira,

E assim ele foi crescendo,

De tia ele a chamava,

Sua mãe não muito gostava,

Depois foi ela cedendo.

 

Maria era uma boa gerente,

Na San Michel trabalhava,

E o transporte da gente,

De moto eu lhe levava,

fez curso de enfermagem,

em técnica então se formou,

eu vi até a filmagem,

mas ela não trabalhou.

 

Me transferi pra Caucaia,

Na regional dois trabalhei,

em técnica de enfermagem,

Pra ela então arranjei,

No Grilo fomos morar,

Pra planejar nossa vida,

E pra depois dessa lida,

A vida então melhorar.

 

Dois anos após nos casamos,

E pra família eu entrei,

Desde que juntos estamos,

Felicidade encontrei,

Nem sempre estamos felizes,

Altos e baixos nós temos,

Mas logo nós percebemos,

Que nós não somos juízes.

 

Não nos julgamos por mal,

E mesmo assim discutindo,

Lembro que somos casal,

E vamos admitindo,

Que pra dar certo a união,

Nenhum dos dois está certo,

E se de Deus está perto,

Se vive com o coração.

 

Na família fui me achegando,

Visitando na Paraipaba,

O Vô me recebe bem,

Dele a Maria se gaba,

Da vó então nem se fala,

É uma pessoa tão boa,

Sua voz no D1 ecoa,

De falar bem não se cala.

 

A família é Silva e Holanda,

Agora tem Rocha no fim,

O Caipira é quem manda,

Se quiser vai ser assim,

Eu disse não tem problema,

O importante é estar bem,

Pois pra se viver com alguém,

Tem que enfrentar o dilema.

 

O pai da Maria é José,

Sua mãe é Catarina,

Do Setor C1 ele é,

Aqui escreveu sua sina,

Na agricultura viveu,

De sol a sol nesta luta,

Por causa desta labuta,

Do pulmão adoeceu.

 

Pra ficar perto e cuidar,

Da família e do seu pai,

Vamos para o C1 mudar,

Porque senão ele cai,

Eu concordei, está certo,

A gente constrói uma casinha,

No terreno que ele tinha,

E assim você fica mais perto.

 

Nosso projeto cresceu,

Em 2010 comecei,

E a casa que apareceu,

Eu no baldrame comprei,

vizinho a casa do pai,

o material fui comprando,

e as paredes levantando,

Ela disse agora vai.

 

Antônio Filho é o cunhado,

Casado com a irmã dela,

De construtor é prendado,

Colocou porta e janela,

Botou a telha e a madeira,

Fez o piso cimentado,

Deixou o banheiro acabado,

Rebocou a cumeeira.

 

Com a casa pronta e pintada,

Em fim de semana chegando,

já veio outra empreitada,

Numa loja Ela pensando,

Troquei a moto em que eu vinha,

Em uma tal locadora,

Mas Ela era amadora,

Experiência não tinha.

 

A loja até funcionou,

Na casa do Antonio Balú,

Más isso não prosperou,

Não foi pra mim nem pra tú,

Ficou na mão do João,

Não tinha experiência,

Deixou ir na decadência,

Mas era seu outro irmão.

 

Enquanto isso eu voltava,

Segunda de madrugada,

E trabalhando pensava,

Onde é que isso levava,

Um fiat uno comprei,

Pra facilitar o acesso,

Fazendo a ida e regresso,

Por algum tempo fiquei.

 

O Fiat não aguentava,

Dava problema por hora,

Maria é quem empurrava,

Ia mais tempo lá fora,

A coisa foi melhorando,

E pra acabar com a cisma,

A gente comprou um prisma,

Na prestação fui pagando.

 

Um prisma O kilometro,

Na Krautop Fortaleza,

Com airbag e ondometro,

Ai sim, era uma beleza,

A Maria tava feliz,

Não ia mais empurrar,

A vida viu melhorar,

Foi tudo que eu sempre quis.

 

Da Caucaia então nós voltamos,

Pra em Fortaleza morar,

Um projeto nós concordamos,

Nós vamos economizar,

Pra dar entrada na Caixa,

Nós Fomos morar numa vila,

De algumas casinhas em fila,

Mas dava na nossa faixa.

 

E o Vicente se casou,

Vanilla é sua mulher,

Morando com a mãe ficou,

Não é isso que ele quer,

David me vende tua casa,

Te dou lá atrás outro chão,

E pago na prestação,

Se quiser tu pega e vaza.

 

Eu não me apego a nada,

Maria também concordou,

Minha palavra foi dada,

A gente então se mudou,

Em outra obra começa,

Uma nova casa a nascer,

Com o tempo tambem vai crescer,

E nada há que impeça.

 

Foi feita a primeira parte,

Com riso, suor e sofrimento,

Fiz o desenho com arte,

O Antônio deu o crescimento,

Banheiro, sala e cozinha,

Um cômodo atrás pra que isso,

É uma área de serviço,

Era tudo o que a casa tinha.

 

A escada ficava pro lado,

Depois construiu a parede,

Depois faz outro quadrado

Já tem armador pra uma rede,

Aos poucos ela foi crescendo,

Sala de entrada e garagem,

Aqui vai ser a passagem,

Uma casa já está parecendo.

 

Em 2015 eu troquei,

O prisma num HB20,

Pelo sedan optei,

Não estou fazendo acinte,

Era uma máquina e tanto,

Num assalto dentro de casa,

No HB20 ele vaza,

E eu fiquei só no pranto.

 

Mas Deus é muito bondoso,

E mostra quem ele é,

É misericordioso,

Mandou foi um Chevrolet,

Sem ele é muito pior,

Ele não fica alheio,

Me deu uma S10-Rodeio,

Mostrando que ele é maior.

 

Agora a S10 foi embora,

O Erlanilson comprou,

E outra veio sem demora,

Uma Mitsubishi chegou,

É L-200, outdoor,

2011 é o seu ano,

Mas nisso eu não me engano,

Pois achei muito melhor.

 

E assim, o tempo passou,

Eu continuei trabalhando,

A aposentadoria chegou,

Pro interior fui mudando,

E lá é mais fácil viver,

A vida é bem diferente,

Já conheci muita gente,

Vou muito mais conhecer.

 

A casa também aumentou,

Mais até do que devia,

A construção continuou,

Do jeito que disse a Maria.

Embaixo tem quatro partes,

Área, sala, Cozinha e banheiro,

Em cima gastei mais dinheiro,

Foi uma obra de arte.

 

Mandei murar o terreno,

Mandei fazer um portão,

Mesmo não sendo pequeno,

Também não é tão grandão,

Mede quarenta por vinte,

A casa ficou bem no meio,

Dá pra fazer um arrodeio,

Tudo com muito requinte.

 

Em cima, três quartos têm,

Varanda que dá lá pra fora,

Fiz um banheiro também,

Vem acabamentos agora,

Com circulação externa,

Tem escada pra gente subir,

Segura pra não cair,

Também não cansa a perna.

 

Da casa eu gostei bastante,

Tem deck com churrasqueira,

Tem oficina com estante,

Vou colocar uma banheira,

Pra quando fizer calor,

Ou eu chegar bem cansado,

Vou relaxar do enfado,

Junto com meu amor.

 

Agora estou bem satisfeito,

Já não vou mais trabalhar,

E pra não perder o meu jeito,

Não posso me acomodar,

Consultoria é o negócio,

Que faz eu levantar cedo,

Dr. Henrique Azevedo,

Foi quem me livrou do ócio.

 

Foi quase um ano de luta,

fazendo a empresa andar,

com chuva ou sol na labuta,

não deu pra continuar,

A Fibra Coco era a tal,

Tem gente boa e decente,

Amigos que gente sente,

Que tralhar é legal.

 

Deixando a empresa eu voltei,

Pra começar outra vida,

Pois lá eu não encontrei,

Apoio, fé e guarida,

Em casa eu estou vivendo,

Tentando um livro escrever,

Esperando um dia alguém ler,

É isto que estou querendo.

 

A minha fé é bem grande,

Pois sei que Deus é meu pai,

Pra onde quer que ele mande,

Eu sei que esse filho vai,

Qualquer lugar do Brasil,

Cidade ou no interior,

E seja do jeito que for,

Eu vou é com mais de mil.

 

Sei que agora estou bem,

Minha vida estou vivendo,

E se devo isso a alguem,

Deus me está concedendo,

Todos os dias agradeço,

Faço minha oração,

E com grande devoção,

Vendo que não mereço.

 

Meus filhos seguem suas vidas,

No Pará eu tenho três,

Cada um nas suas lidas,

Peço a Deus por vocês,

No Rio a Lídia ficou,

E mesmo nesta distância,

Nos falamos com constância,

Nisso o amor aumentou.

 

O Arthur está em Fortaleza,

Agora já é homem feito,

Com aparência e beleza,

Tornou-se um filho perfeito,

Com a sua mãe está morando,

Já demoramos nos ver,

Não é por assim querer,

Pela distância aumentando.

 

Só um dos filhos morreu,

Foi o Abraão quem partiu,

Uma outra vida escolheu,

Outro caminho seguiu,

Com vinte e três anos apenas,

A morte veio lhe encontrar,

Por esse caminho buscar,

Minhas dores não são amenas.

 

De Deus eu tento estar perto,

A oferecer gratidão,

E de uma coisa estou bem certo,

Pois dele eu tenho o perdão,

Buscar a Deus noite e dia,

Ao seu espírito acolher,

E mesmo sem merecer,

Viver com tanta alegria.

 

Pelas lembranças que tenho,

Algumas não me alegram,

Falar de uma delas venho,

E os sentimentos revelam,

Eu ainda guardo os traços,

Foi num domingo em Janeiro

Num respirar derradeiro,

Perdi meu pai em meus braços.

 

Dois mil e quatorze era o ano,

Do dia que aconteceu,

Janeiro dia dezenove,

Dia que ele morreu,

E assim o tempo passando,

Em Deus pus minha esperança,

E sigo com confiança,

Pois nele estou esperando.

 

Em dois mil e vinte se deu,

Sendo essa outra premissa,

Minha irmã Waldeth morreu,

Morava lá na Suíça,

Se Deus de lá lhe chamou,

Livrando de suas dores,

Mas nos deixou seus amores,

Dois filhos que ela gerou.

 

O Mike e a Carol lá ficaram,

O Gerrard é o seu pai,

Os filhos o acompanharam,

E Deus ampará-los vai,

Sua mãe com fé os criou,

Lhes ensinou com carinho,

De Deus lhe mostrou o caminho,

Por isso muito lhe amou.

 

Minha mãe continua sua lida,

Morando vizinho a mim,

Em Deus confia sua vida,

E juntos vivemos assim,

Juntamos toda a esperança,

Chamando filhos e netos,

Fizemos novos projetos,

Botando em Deus confiança.

 

Minha mãe assim resolveu,

Mudar pra Pindoretama,

Numa obra empreendeu,

Pois o coração lhe inflama,

Uma casa assim construir,

Naquela cidade praiana,

Lugar que agora ela ama,

E agora pra lá quer partir.

 

Com a sua casa já pronta,

Minha mãe e irmã se mudaram,

Com os filhos agora ela conta,

Com os que distante ficaram,

Pra ir visitar vez em quando,

Juntando os entes queridos,

Pois não ficaram esquecidos,

Sempre atendendo ao seu mando.

 

E assim nós todos fizemos,

Visitar sempre que dava,

Aproveitar nós podemos,

Os dias que lhe restava,

Até que no mês de abril,

O ano foi vinte e cinco,

Lutou com muito afinco,

No dia quinze partiu.

 

Ficamos tristes também,

Por causa da sua partida,

E todos dissemos amém,

Sendo por Deus recebida,

Restando aos filhos agora,

Manterem essa comunhão,

Viverem unidos os irmãos,

Buscando a Deus toda hora.

 

E mesmo estando dispersos,

Cada um no seu caminho,

Estou colocando em versos,

O que aconteceu neste ninho,

De uma família criada,

Sob a graça de Deus,

Que cuida dos filhos seus,

Na sua palavra falada.

 

Hoje o ano se finda,

Na Paraipaba eu morando,

Vivendo numa casa linda,

Em Deus estou esperando,

Tentando fazer minha parte,

Fazendo minha oração,

Com Deus no meu coração,

Vou declamando minha arte.

 

O Cordel é uma expressão,

Entre muitas que eu conheço,

Também revelo em canção,

Tudo com muito apreço,

Fazendo que outros percebam,

Como é importante a cultura,

Transformando a criatura,

Para que todos recebam.

 

Deus abençoe a todos.

 

David V Rocha
Enviado por David V Rocha em 06/11/2025
Alterado em 06/11/2025
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