David Rocha
Nada será impossível ao nosso amor, Enquanto deixar-me contigo e enquanto comigo for.
Textos

Francisco Gonçalves Filho - 15.05.1925

Vô Chico Caipira - 15.05.2024 - 99 anos de vida

Quando fui convidado,

Pra fazer esta oração,

De pronto fiquei animado,

Mas com muita apreensão,

Por ser tão ilustre pessoa,

Pai de família tão boa,

Acalmei meu coração.

 

E logo sabendo quem era,

A titular do pedido,

Eu nem deixei na espera,

Já estava decidido,

Vou fazer esta oração,

Abrindo meu coração,

Pra um ente tão querido.

 

Fiquei matutando na prece,

Tentando achar um começo,

Eu quase virei do avesso,

Mas nada na mente aparece,

Pois tava faltando a história,

Daí me veio na memória,

A Gerviane conhece.

 

Liguei pra Gervy e pedi,

Informação sobre o Vô,

E ela disse, eu te dou,

Depois ela disse esqueci,

Mas amanhã eu te ligo,

Fiquei pensando comigo,

Já tá bom o que escrevi.

 

Não era o suficiente,

Depois que eu li achei pouco,

Eu devo estar mesmo louco,

Pois lá vai ter muita gente,

Esperando por uma oração,

E eu com um papel na mão,

Mais parecendo um demente.

 

A noite eu liguei de novo,

E quando a Gervy atendeu,

Ontem você prometeu,

Cadê o assunto do povo,

Eu no D1 ainda estou,

Mais tarde pra casa eu vou,

Chegando em casa eu resolvo.

 

Me lembrei de um bom momento,

Pois na família eu chegando,

Do Vô fui me aproximando,

Pra ter mais conhecimento,

Pra saber o que ele diria,

Se eu me casar com a maria,

Vou ter seu consentimento.

 

Você parece decente,

Tem boa intenção e tem meta,

Pois eu espero minha neta,

Se casar com boa gente,

Pra não sujar o meu nome

Que ela se case com um homem

Que fala logo o que sente.

 

Fui ficando animado,

Fui por todos bem aceito,

A vó preparou um leito,

Ficamos no quarto ao lado,

Com pouco tempo casei,

Se ainda não separei,

É porque estou bem casado.

 

Mas vamos do Vô falar,

Que é o centro da história,

É quem merece esta glória,

Pois vamos comemorar,

Quase um século de vida,

E sei que ninguém duvida,

De um século e meio chegar.

 

Lembrando o dia 15 passado,

No mês de maio nasceu,

Maranguape o recebeu,

Sendo ali foi batizado,

A escola não frequentou,

Mas a vida lhe ensinou,

Todo o seu aprendizado.

 

Em Paraipaba chegando,

Quando outro nome ela tinha,

Com seus irmãos ele vinha,

Sobre jumentos andando,

Passagem do Tigre chamava,

Nas margens do rio ficava,

E foram ali se abancando.

 

O apelido é Caipira,

Herdado do pai com prazer,

No jogo de azar via fazer,

Sobre a mesa o dado vira,

Mostrando pra quem aposta,

Pois neste jogo quem gosta,

Um pouco de grana ele tira.

 

Fazenda Camurupim,

Onde também trabalhou,

Por vinte anos suou,

Tirando cera e capim,

Plantou arroz e verdura,

Mesmo na lida tão dura,

Disse: não é o meu fim.

 

Trabalhou no desmatamento,

Pra construção da cidade,

E mesmo com pouca idade,

Sofria mais que o jumento,

Mesmo assim ele dizia,

Ai meus Deus como eu queria,

Um pouco mais de alento.

 

O DNOCS reconhecendo,

E isso ficou por certo,

Quem acompanhou de perto,

Vendo a cidade crescendo,

Chico Caipira é o primeiro,

No assentamento inteiro,

Que mais está merecendo.

 

Escrevendo com a enxada,

Sem chorar e sem ter medo,

Levantando muito cedo,

Saindo na madrugada,

Respeitando mãe e pai,

Apanhando da vida vai,

Desenhando sua estrada.

 

Há quem diga que valeu,

Pois a vida é quem ensina,

E o caminho ilumina,

De quem na vida aprendeu,

Que o tempo é um ótimo mestre,

Mas que só passa no teste,

Quem com respeito viveu.

 

Pouca gente vive tanto,

Ainda mais com saúde,

Eu acho que a vida rude,

Também lhe trouxe o manto,

Lhe deu a felicidade,

De chegar nesta idade,

Sem sobressalto e espanto.

 

Com Maria Antunes casou-se,

Em 45 foi o ano,

Diz que não foi por engano,

E a família ela dedicou-se,

Onze filhos ela lhe deu,

E pelo tempo que viveu,

Só na morte separou-se.

 

76 anos ficou casada,

Até fevereiro do 21,

Se Deus precisou de mais um,

Foi ela, então, convidada,

Partiu deixando na gente,

Saudade que a gente sente,

No peito eternizada.

 

Dos filhos que aqui deixou,

Da bíblia deu nome aos primeiros,

Mas a todos estes herdeiros,

Sem distinção muito amou,

José, Pedro, João e maria,

Tratou com o bem que queria,

O que já foi e o que ficou.

 

Varonil, Francisco e Antônio,

Valter, Ivaldo e Valmir,

E aos que ela viu partir,

Deu-lhe um semblante tristonho,

Valdimiro não quis mais falar,

Então resolveu se calar,

Vê-lo curado foi seu sonho.

 

Os outros depois vieram,

Por adoção com carinho,

Fizeram parte do ninho,

São gratos porque tiveram,

Do seu amor e atenção

Um lugar no seu coração,

Seus passos na vida fizeram.

 

A Gervy e a conceição,

Tem um capítulo à parte,

Pois de ensinar tem a arte,

Com muita convicção,

O Alexandre é o Teté,

Desde criança ele é,

Amado de coração.

 

Mas o Vô é essa figura,

Tem coração de gigante,

Tem autoridade vibrante,

Mesmo sem ter cara dura,

Sempre muito hospitaleiro,

Trata o último e o primeiro,

Com uma alma tão pura.

 

Faltando um ano pra cem,

99 passaram,

De tudo que já falaram,

Guardando o ano que vem,

A gente vai esperando,

E até já se preparando,

Pra essa data também.

 

De tudo que se imagina,

Seu chico experimentou,

Mas nunca desrespeitou,

Um cidadão ou senhora,

Nem nunca pegou no alheio,

Pois isso também acha feio,

Esse erro ele não penhora.

 

Viu secas e viu enchentes,

Viu guerras e algazarras,

Mas nunca gostou de farras,

Nem lugar com muita gente,

Fala de tudo em quanto,

De sorriso e até de pranto,

Por isso fala o que sente.

 

Se você está por aqui,

Veio pra festa com a gente,

Fique em pé ou se sente,

Espere o que está por vir,

Tome um café com biscoito,

Mas não fique tão afoito,

Querendo logo partir.

 

Espere pra prosear,

Saber mais do que se passa,

Mas não me deixe sem graça,

Escute o que vou falar,

O aniversariante do dia,

Está esperando com alegria,

Você parabenizar.

 

Parabéns, Vô Caipira...

Pelos 99 anos vividos,

E não serão esquecidos,

Pois já estamos na mira,

De para o ano que vem

Vamos comemorar é cem,

E isso, só Deus lhe tira.

 

Francisco Gonçalves Filho

Vô Chico Caipira

Nascido em Maranguape-CE

15/05/1925

 

David V Rocha
Enviado por David V Rocha em 31/10/2025
Alterado em 06/11/2025
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